terça-feira, 8 de abril de 2008

Ecologia e Caracterização do Núcleo de Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) no Parque Natural do Alvão

A população nacional de Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) encontra-se classificada como “Em Perigo” e acompanha a tendência mundial da espécie, cujas populações se encontram em acentuada regressão. Nesta perspectiva este estudo teve como objectivo determinar a fenologia e estatuto local da espécie, bem como a estrutura do habitat utilizado e a dieta alimentar, no Parque Natural do Alvão. Com esse intuito, recorreu-se a métodos de observação directa, à utilização de câmaras fotográficas de detecção remota, à marcação individual e ao radioseguimento de aves.

Ao longo de 8 meses (de Fevereiro a Outubro de 2006), foi avaliada a constituição da população. O número de aves que compõe o grupo estudado variou ao longo do ano; observou-se um maior número de indivíduos durante o período de Inverno (em média 16 indivíduos) tendo este número decrescido no período reprodutor (em média 4 indivíduos). Confirmou-se, para o ano de 2006, a presença de um casal reprodutor com indícios de nidificação possível. A Gralha-de-bico-vermelho utiliza nesta área dois dormitórios: uma cavidade em maciço granítico e um corte de exploração mineira no subsolo, este último utilizado com maior frequência.



O método de radioseguimento permitiu obter a confirmação da fidelidade aos dormitórios monitorizados e determinar as principais áreas utilizadas para alimentação.


O habitat utilizado pela espécie encontra-se acima dos 700 metros, caracterizado essencialmente pela presença de afloramentos rochosos graníticos, associados a vegetação rasteira constituída por Carqueja (Pterospartum tridentatum), Urzes (Erica arborea e Erica cinerea) e por herbáceas. Nos locais amostrados foram registados indícios da sua utilização por gado bovino Maronês e caprino, assim como por Coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus).

O estudo das amostras de dejectos recolhidos nos dormitórios desta ave revelou a presença de insectos na sua dieta alimentar, dos quais se destacam os Aracnídeos (Aranhas), Coleópteros (Escaravelhos), Dípteros (Moscas) e Hymenopteros (Formigas) e ainda sementes de diferentes espécies de plantas.

Como conclusão deste estudo são propostas linhas de conservação e protecção, tais como:

  • Criação de incentivos para a prática da pastorícia tradicional;
  • Manter a prática da queima tradicional de matos;
  • Estimular a manutenção do pastoreio tradicional de Inverno;
  • Integração dos requisitos ecológicos da espécie nos planos de ordenamento;
  • Controlar a florestação nas áreas de habitat de alimentação;
  • Promover acções de sensibilização junto das populações locais sobre a importância que esta espécie tem como indicadora dum "ambiente de alta qualidade".

Carla Pereira

8 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns por este excelente espaço de saber e aprendizagem. Será que existem estudos exaustivos sobre a alimentação da gralha de bico vermelho?
helder

Carla Pereira disse...

Caro Hélder, obrigado pelo comentário. De facto, em Portugal não existem muitos estudos sobre a alimentação desta espécie, destacando-se alguns trabalhos realizados por João Carlos Farinha no núcleo de Sagres S. Vicente e por Filipe Bally na Serra de Aire e Candeeiros. Contudo, já foram realizados estudos noutros países sobre a alimentação desta espécie, os quais pode consultar nos seguintes artigos: "Soler, J. & Soler, M.(1993) Diet of the Red-billed Chough Pyrrhocorax pyrrhocorax in south-east Spain. Bird Study 40, 216-222"; "Blanco, G; Fargallo, J. & Cuevas, J. (1994). Consumption rates of olives by choughs in central Spain: variations and importance. Journal Field Ornithology, 65(4): 482-489"

Anónimo disse...

Olá Gralheiros,

Será que quando as gralhas eram muitas além de haver pastoriçia etc e tal os solos não eram lavrados? Será que a compactação dos solos ao longo dos anos as ajuda?

Pois cá para mim que ando aqui em Sagres esta coisa dá que pensar... pensar, pensar, pensar.

Anónimo disse...

Obrigado Carla pela bibliografia, vou agora tentar obter os artigos para poder ler.
O querer saber mais sobre alimentação tem a ver com o relato que li aqui no blog e que refere invertebrados e bagas como ingestão regular. Presumo que os invertebrados os capturem no solo e que por isso devam ser larvas ou pequenos invertebrados com pouca capacidade de fuga tipo aracnídeos. Estou curioso para ler os trabalhos que citou pois admito que a percentagem de captura de invertebrados possa mudar na altura da criação. É precisamente este tema que me interessa a reprodução e como varia ou não a alimentação dos adultos e da cria.
Obrigado pela sua resposta.
Helder

Carla Pereira disse...

Caro Amigo,

de facto pouco se sabe sobre o habitat de alimentação desta espécie e se haverá um só motivo que contribua para a redução do número de indivíduos. Encontram-se descritos habitats preferenciais de alimentação desde rocha nua, passando por terras de alqueive, lameiros, pastagens de montanha e até dunas. Deste modo parece que por si só a compactação poderá não ser suficiente para explicar o desaparecimento da espécie.
No entanto, as alterações entretanto ocorridas quer nos métodos de exploração agrícola quer na pastorícia certamente estarão relacionados com a presença/ausência desta espécie.

O GATO DAS BOTAS disse...

Caros amigos,

Talvez eu esteja a ver mal, talvez seja novo, talvez...
Mas já existe um mapa de 2oo8?

Cá para mim, anda-me aqui uma área verde a querer ser actualizada.

Pedro Portela

Anónimo disse...

Apesar de ser um blog da gralha de bico vermelho, a minha pergunta tem a ver com a gralha de bico amarelo.
A distribuição da gralha de bico amarelo já contemplou o território nacional?
Se já foram observadas mesmo que com carácter errático em Portugal??
Esta curiosidade pela prima da vermelha deve-se ao facto de ter visto no norte de Espanha pela primeira vez a gralha de bico amarelo.
Helder

Carla Pereira disse...

Caro Hélder,

A distribuição da Gralha-de-bico-amarelo de facto contempla o Norte de Espanha, mas em relação a registos desta espécie em Portugal, não temos conhecimento. Mesmo consultando bibliografia mais antiga, como Tait (1924), sobre as aves de Portugal, não existe nenhuma referência a indivíduos desta espécie no nosso país.